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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Momento Pipoca: Haverá Sangue (2007)


A apendicite aguda que repentinamente me surgiu obriga-me a ficar em casa e a não dar descanso ao sofá... Aproveito para colocar o sono em dia e atualizar a visualização de filmes!

Ontem foi dia de ver "There will be Blood", de Paul Thomas Andersen (Boogie Nights e Magnolia). O filme, de 2007, conta a história de Daniel Plainview (brilhantemente interpretado por Daniel Day Lewis) e da sua busca incessante pela riqueza e pela fama.

A película desenrola-se no final do século XIX / início do século XX e apresenta-nos um retrato fiel dos tempos de pesquisa ávida de recursos no solo, principalmente petróleo, e do jogo de interesses sem escrúpulos que este capitalismo representa.

Neste épico - que é muito mais do que uma história sobre a febre do petróleo - há um conflito psicológico complexo com o espetador e uma reflexão sobre a família, a religião, os valores morais e até onde os mesmos se aguentam quando degradados pela corrupção, ambição desmedida, vingança, angústia e solidão.

De um lado, um combate entre as forças económicas e religiosas; do outro, a interligação entre a fé exacerbada e o fanatismo interesseiro e o egoísmo para reforço de um império pessoal. Em ambos os casos, multiplicam-se os piores defeitos da humanidade.

Com interpretações brilhantes e com intensidade física e psicológica, "Haverá Sangue" (baseado livremente em Oil, de Upton Sinclair) poderá ser (injustamente) um filme incompreendido pelas massas e pouco valorizado.

As imagens apresentadas ao longo do filme são poderosas e demonstram detalhe e produção cuidada. A nomeação para 8 Óscares (Daniel Day-Lewis venceu - merecidamente -, o de Melhor Ator) mostra a qualidade da película e da banda sonora.

O petróleo é, ao longo dos tempos, um prenúncio de guerra e sangue. E nada mais negro e angustiante do que este retrato. De destacar, a postura de Daniel Plainview com o filho H.W.: «You're not my son. You're just a little piece of competition. Bastard from a basket. Bastard from a basket! You're a bastard from a basket!»


There will be Blood
★★★★★

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Momento Pipoca: Beasts of No Nation (2015) e Diamante de Sangue (2006)

Na semana passada, eu e a Maria decidimos assistir a "Beasts of No Nation". Por coincidência do destino, ela vira "Diamante de Sangue" ("Blood Diamond") nesse mesmo dia. Ambos os títulos têm no continente africano e na guerra os seus pontos de concordância e retratam conflitos entre os governos grupos rebeldes, bem como a formação de crianças-soldado.

"Beasts of No Nation" (Cary Joji Fukunaga, Netflix)
★★★★★


Em "Beasts" seguimos Agu (Abraham Attah), um jovem rapaz de um país africano não nomeado, que perde a sua família durante um ataque. Conseguindo escapar, é encontrado por membros da NDF, uma fação extremista que está em confronto com o governo. A partir daqui, Agu é "apadrinhado" pelo Comandante (Idris Elba), o líder de um grupo de guerrilheiros da NDF, e treinado para se tornar um soldado na luta contra o regime implementado.

Durante a longa-metragem, assistimos à perda da inocência às mãos das barbaridades da guerra. Agu transforma-se: deixa de ser um menino que gosta de brincar e torna-se, segundo ele próprio, num monstro, que matou e viu matar; que foi abusado e assistiu a abusos. Aqui, a guerra é apenas o plano de fundo. O objetivo da história não passa por mostrar a violência, mas antes por acompanhar as transformações de um rapaz à medida que os horrores da guerra fazem parte do seu dia-a-dia.

No final, resta a esperança que Agu e outras crianças-soldado consigam reconstruir as suas almas e encontrar paz suficiente para voltarem a sorrir ao futuro, depois de um passado tão negro.


"Diamante de Sangue" (Edward Zwick)
★★★★★


Em 1999, a Serra Leoa está em clima de guerra civil. Pessoas assassinadas, mãos cortadas a sangue-frio e saques são a ordem do dia.

Forçosamente, Solomon Vandy, um pescador, separa-se da família durante um ataque à sua aldeia pela Frente Revolucionária Unida (RUF). Capturado, consegue escapar à mutilação e é enviado para trabalhar uma zona de exploração de diamantes.

Danny Archer é um mercenário/contrabandista que é apanhado a tentar passar diamantes pela fronteira da Serra Leoa com a Libéria. Enquanto está preso, fica a saber que Solomon (que também se encontra atrás das grades após o campo de exploração ser atacado pelo exército) descobriu um grande diamante rosa e o escondeu em algum local.

Danny convence Solomon a levá-lo à pedra e, em troca, promete ajudá-lo a encontrar a sua família Em conjunto com Maddy Bowen (Jennifer Connelly), uma jornalista americana, seguem pelo país em guerra. Pelo caminho, sabemos que o filho de Vandy é capturado pelos rebeldes e assistimos à lavagem cerebral feita, para o tornar num soldado.

Com um abordagem mais abrangente que "Beasts of No Nation", "Diamante de Sangue" envereda, numa primeira parte, pela exploração do conflito. Só depois da queda de Freetown (capital da Serra Leoa), é que o filme realmente se foca nas personagens, cada uma com posições diferentes sobre a guerra e a exploração por parte dos países "desenvolvidos".

Com grandes prestações de Leonardo DiCaprio e Djimon Hounsou, é uma obra para ver e colecionar.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Momento Pipoca: The Revenant


"The Revenant" traz-nos - pela mão de Alejandro González Iñárritu (óscar por Birdman, em 2015) - Leonardo DiCaprio e Tom Hardy. A obra é muito destes dois atores, para além da excelente fotografia, cenários e banda sonora de Sakamoto (Babel e The Last Emperor). Mas vamos por partes...

No século XIX, Hugh Glass (DiCaprio) partiu para o oeste americano, disposto a ganhar dinheiro com a venda de peles. Partilhando as aventuras com o seu filho mestiço, Glass é atacado por um urso. Fica seriamente ferido e é abandonado pelos parceiros de caça, nomeadamente Fitzgerald (Tom Hardy), durante um Inverno rigoroso. Enquanto se debate pela vida, Glass vê ainda o seu filho ser morto.

No meio de toda a adversidade, o explorador consegue sobreviver e inicia uma jornada por território selvagem em busca da vingança, pelo filho e pela falta de companheirismo.

"O Renascido" é um filme cru, duro e visceral. Inspirado em factos verídicos e no livro de Michael Punke (2002), a obra é frenética, intensa e dramática. De tirar o fôlego ao espetador.

Com uma grande aptidão técnica e estética, a dimensão envolvente do filme transmite realismo, crueldade, frieza e retaliação. A película é séria e adulta (não aconselhável a pessoas sensíveis), onde o drama e a ação andam de mãos dadas. Há momentos em que os planos-sequência e o virtuosismo técnico fazem o espetador entrar numa quarta dimensão, onde se sente o frio, a dor e o cheiro a doença ou a terra molhada.

O conjunto de sequências, cenários e planos devem ser aproveitados nas salas IMAX, para que o espetador possa usufruir de todas as vantagens.

DiCaprio tem uma atuação de encher os olhos, arrebatadora. Sem grandes diálogos, há uma prestação multidimensional: momentos em que a dor física e emocional são eletrizantes, momentos amorfos, momentos de desgaste ou de uma energia anormais. Hugh Glass transmite um dicionário de expressões, com uma forte presença física e intensidade no olhar.

Tom Hardy (Mad Max, 2015) tem outra prestação de grande dimensão e está brilhante como John Fitzgerald, um ignorante que apenas quer salvar a sua pele, ausente de sentimentos e com imensa maldade.

Durante as gravações, os atores enfrentaram grandes dificuldades: para além do temperamento difícil do realizador, as filmagens foram efetuadas com luz natural e debaixo de temperaturas negativas. Di Caprio nadou em rios gelados e enfrentou nevões; o ator de Titanic comeu ainda fígado cru, numa cena que se encontra refletida no filme.

A obra ganhou três importantes categorias dos Globos de Ouro de 2016: melhor drama, melhor ator de drama (Leonardo DiCaprio) e melhor diretor (Alejandro González Iñárritú). Está indicado a 12 Óscares, incluindo melhor filme, melhor diretor, melhor ator e melhor ator secundário. Independentemente do número de troféus que possa conquistar, é sem dúvida um grande filme.

A única nota negativa vai para a carnificina animal transmitida durante o filme. Numa altura em que tanto se fala em direitos dos animais, são muitas as cenas cruéis e selvagens, que chocam os amigos dos seres de quatro patas. Um incremento de violência que, apesar de real para o período em que se insere o filme, é desnecessário para contextualizar o mesmo.

The Revenant
★★★★★

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Momento Pipoca: Star Wars: O Despertar da Força (2015)

As duas melhores personagens do filme

Enquanto espero para entrar na sala de cinema, estou rodeado de uma multidão alegre e efusiva. É compreensível tal ambiente, pois, passados dez anos, "Star Wars" estava de regresso.

A saga mais famosa da 7ª Arte voltou com pompa. Depois de uma campanha de marketing que nunca revelou demasiado acerca do enredo, o mundo debatia teorias sobre a direção que o filme iria tomar. Após anos de especulação, eis que chegara o momento e todos estavam ansiosos e, sobretudo, esperançosos que as suas expectativas não saíssem defraudadas (como acontecera com segunda trilogia).

"Star Wars: O Despertar da Força" cumpriu a promessa. Voltou às origens, com efeitos práticos, personagens carismáticas e um vilão bastante interessante.

Num filme com pouco mais de duas horas, o ritmo é frenético. Desde o tradicional texto de abertura até aos créditos finais, não há paragens e tudo está em movimento. Voltam as batalhas aéreas, os voos acrobáticos, as lutas com sabres de luz... Ah, a nostalgia...

Ao argumento e à excelente produção técnica é obrigatório acrescentar as grandes personagens que dão a cara pela primeira vez, como Rey (Daisy Ridley domina o papel e é o grande destaque do filme), Finn, Poe Dameron (apesar de ter menos tempo de ecrã que os restantes) e, sobretudo, BB-8. É bom que R2-D2 esteja atento à concorrência!

Do outro lado da cerca está Kylo-Ren, um discípulo do Lado Negro da Força cujo objetivo é honrar e terminar aquilo que Darth Vader começou. Contudo, e sem querer lançar qualquer spoiler, há mais em Kylo-Ren do que aparenta... Fico curioso em saber que caminho irá seguir nos próximos dois filmes.

Claro que o filme não é perfeito. No caso deste sétimo "Star Wars", o calcanhar de Aquiles é não tomar grandes riscos. Aliás, o argumento é bastante semelhante ao do filme original - agora designado de "Episódio IV - Uma Nova Esperança"). No entanto, não deixa de ser um ótimo começo para a nova trilogia, que realmente será avaliado após estrearem os episódios VIII e IX. Ainda assim, espero que Rian Johnson, realizador da próxima longa-metragem, leve a história para caminhos mais originais e ainda não explorados. Não quero uma quarta Estrela da Morte!

Star Wars: O Despertar da Força
★★★★

sábado, 5 de setembro de 2015

Momento Pipoca: As Mil e Uma Noites – Volume 1, O Inquieto


Neste final de Verão, Miguel Gomes (Tabu - 2012 e Aquele Querido Mês de Agosto - 2008) traz-nos uma sátira a Portugal e um retrato do que têm sido os últimos anos neste país.

Através de uma mistura entre o documentário (com base em testemunhos verídicos e a partir da realidade recente) e a ficção (uma adaptação dos contos populares árabes de "As Mil e Uma Noites" narradas pela rainha Sherazade), o realizador traça a história de um país mergulhado na austeridade. Para isto, apresenta vários capítulos que abordam a temática do desemprego, a crise económica e a ebulição social (como a que abalou os Estaleiros de Viana) e as histórias (quase inacreditáveis) da vida nas aldeias portuguesas.

Gomes não esqueceu - nem podia - a chegada da Troika a Portugal e apresenta uma possibilidade sobre a forma como foram tomadas as decisões relacionadas com os cortes orçamentais e o défice.

O filme é realista, ambicioso e bem-disposto. É uma realidade e um retrato social sobre a vida de muitos portugueses, «desempregados de condição», a quem o País nega os direitos básicos e constitucionais de acesso a trabalho, à alimentação e a condições de sobrevivência. O humor aligeira as histórias apresentadas e é uma componente fundamental...

Mas há sempre um mas e, no caso do Volume 1, este deve-se a algum exagero. Primeiro, na dose de humor utilizada no episódio da Troika (que chega a roçar a brejeirice e a badalhoquice barata). Segundo, o exagero na ruralidade apresentada no capítulo do Galo (que quase classifica Portugal como um país de terceiro mundo e pouco citadino). Estes fatores - na minha opinião, completamente desnecessários - fazem com que se perca alguma da magia do filme e levam, por vezes, a esquecer a grande qualidade que o reveste.

A obra, com cerca de seis horas no total, foi acolhida com grandes elogios e premiada internacionalmente, como, por exemplo, no Festival de Cinema de Sidney. Em Portugal, estreou no Festival de Curtas em Vila do Conde.

A longa-metragem é uma coprodução entre Portugal, Espanha, França, Suiça e Alemanha e conta com nomes como Rogério Samora, Adriano Luz, Carloto Cotta, Gonçalo Waddington, Margarida Carpinteiro, entre outros.

A estreia foi garantida em cerca de 30 países, entre eles Grécia, Espanha, Reino Unido, Japão e Brasil. Em Portugal, a segunda parte do filme, "O Desolado", estreia a 24 de Setembro. O terceiro e último volume, "O Encantado", chega uma semana depois, a 1 de Outubro.

MIL E UMA NOITES
★★★★

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Momento Pipoca: As Vantagens de Ser Invisível (2012)


Belo.
Espetacular.
Arrebatador.

Depois de "Ghost World - Mundo Fantasma" e "Juno", "As Vantagens de Ser Invisível" ("The Perks of Being a Wallflower") é o terceiro filme coming-of-age produzido por  Lianne Halfon, Russell Smith e John Malkovich.

Desta vez, seguimos Charlie Kelmeckis (Logan Lerman) - um jovem introvertido, sem amigos e com um historial de problemas psicológicos -, que se prepara para o seu primeiro ano no Liceu. Além da família, a única companhia de Charlie provém das palavras que escreve no seu díário.

No início desta nova aventura académica, o jovem tem realmente dificuldade em relacionar-se com quem quer que seja, sendo alvo de chacota por vezes. Contudo, Charlie começa a estabelecer uma boa relação com o seu professor de inglês (Paul Rudd), que repara na sua inteligência e cultura. O rapaz conhece também dois finalistas - Sam (Emma Watson) e Patrick (Ezra Miller) - e uma grande amizade nasce entre os três.

Baseado no livro de Stephen Chbosky, que, aqui, ocupa também a posição de argumentista/realizador, "Perks" retrata a luta destes jovens com os seus próprios demónios. Alguns dos temas debatidos, como a violência no namoro, a homossexualidade, o bullying, e a pedofilia, irrompem na história com um impacto impressionante. Aqui, parabéns a Chbosky e ao elenco por conseguirem criar personagens tão interessantes, com as quais nos podemos relacionar de alguma forma.

Recomendo, vivamente!

As Vantagens de Ser Invisível
★★★★★

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Momento Pipoca: SPY


O trabalho é cansativo e obriga a descanso nos dias em que um feriado ou o fim-de-semana o permite... E ontem foi um desses dias.
As condições climatéricas não estavam favoráveis e não deram para fugir até à praia e bronzear as pernas...
O local mais óbvio para passar o 10 de Junho foi o shopping. Em dia de estreias no cinema, com um tempo atípico e com roupa de Verão para comprar, parece que o centro comercial foi o nosso refúgio e o de 3/4 da população do Porto e arredores!

Em hora de escolha de filme, foi unânime entre mim e o Fábio Silva que o melhor era uma película simples, sem grande enredos ou premissas complicadas. E quando todo o pessoal escolhia o "Mundo Jurássico", a nossa sala foi a número 7 do NorteShopping e a sessão foi a do filme SPY.

Paul Feig (realizador de "Bridesmaids") traz-nos uma Melissa McCarthy que se torna uma espia depois do misterioso desaparecimento do seu companheiro de trabalho e amor platónico Bradley Fine (Jude Law).

Após um período como deskbound da CIA (auxiliando nas mais complicadas missões), Susan Cooper revela-se uma escolha pouco óbvia mas acertada para ocupar o lugar vago deixado por Fine, infiltrando-se nas atividades pretensiosas e valiosas de De Luca (Bobby Cannavale) e de Rayna (Rose Byrne).

Numa clara rivalidade com Ford (Jason Statham), Susan Cooper assume as mais variadas identidades para conseguir travar as ações pouco ortodoxas do grupo, assumindo-se como uma solteirona dona de 7 gatos até "Amber Valentine".

Com gargalhadas garantidas (e que, no meu caso, me fizeram chegar às lágrimas de tanto riso), SPY assume um rumo crescente e envolvente, que faz querer ver e saber mais sobre Cooper e as suas missões com Nancy e Aldo.

De roubos de mota para apanhar os bandidos a formas pouco claras de integração no seio dos trapaceiros e de tratamento dos inimigos, o filme merece uma continuação. Uma segunda parte de aventuras, cheias de boa disposição, fugindo ao óbvio e básico.

Não obstante haver vontade de, daqui por uns meses, regressar à sala de cinema para mais de Melissa e companheiros, a comédia está tão bem feita e é tão ligeira e realmente divertida que, com um segundo filme, a qualidade pode ficar distorcida e dúbia.

Para rir e chorar por mais, num cinema bem perto e com sala muito composta.

SPY
★★★★½

Nota positiva ainda para a banda sonora do filme!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Momento Pipoca: Phoenix (2014)


Terça-feira foi o dia da nossa estreia no Teatro Municipal do Campo Alegre. À falta de filmes interessantes (que não tenhamos já visto) em outras salas do Porto, optamos por uma obra mais desconhecida do público, em geral: "Phoenix", de Christian Petzold.

A premissa era deveras interessante: Nelly Lenz é uma sobrevivente de um campo de concentração que ficou seriamente desfigurada. Após a reconstrução facial, Nelly inicia a procura do seu marido, Johnny. Quando finalmente o encontra, este não a reconhece. Contudo, as parecenças com a sua "falecida" mulher motivam-no a propor a Nelly que interprete a sua esposa, para conseguirem ambos receber a fortuna que ela deixou.

Sentados no pequeno auditório, com cerca de metade da sala cheia, assistimos a mais uma colaboração entre Nina Hoss e Petzold.

Vencedora do Urso de Prata pelo seu desempenho em "Yella" (2007), Hoss deixa uma ótima marca ao interpretar uma pessoa que interpreta outra. Nelly está quebrada, por dentro e por fora. O seu mundo foi destruído pelo Holocausto e a sua própria identidade é uma manta de retalhos que nem a reconstrução da cara (que é apenas semelhante à original) consegue curar. Em alguns momentos, questionamos que motivos levam Nelly a ser uma pessoa tão dependente do seu marido. Por que razão esta mulher parece viver num outro mundo, onde só voltar a ter o amor deste homem importa. Felizmente, o motivo é explicado durante o filme (e é compreensível, face ao que esta mulher passou durante a II Guerra) e dá um maior peso às ações dos protagonistas.

O "Johnny" de Ronald Zehrfeld é o tradicional oportunista, que vê nesta mulher a chance de conseguir o que perseguia há algum tempo: a herança da esposa. Ao longo da obra, ficamos a conhecer o calculismo com que prepara o seu plano, desde a roupa de Nelly até aos comportamentos que devem ter nos momentos em que estão juntos.

A realização de Petzold é bastante eficaz. A última cena é tão simples como bela, o clímax de toda a história até ao momento. No entanto, e apesar de não ser o objetivo do realizador, gostaria de ter visto mais um pouco do mundo pós-guerra, bem como saber mais sobre as restantes personagens, sobretudo a de Nina Kunzendorf. Explorar um pouco mais a confusão de Nelly face a si própria e a sua relação com o verdadeiro Johnny seria muito bem vindo.

Phoenix
★★★½

domingo, 3 de maio de 2015

Momento Pipoca: Capitão Falcão


Ontem, foi dia de cinema. A noite foi passada no Parque Nascente e teve direito a sessão bem portuguesa.

"Capitão Falcão" é o super-herói que vai salvar o país dos comunistas («a ameaça vermelha») e das feministas («porque não há nada pior do que uma mulher que pensa que é um homem»).

Gonçalo Waddington interpreta o protagonista da história (que tem traços de machista e pai autoritário) e cujo mestre foi o Capitão Gaivota (interpretado por Miguel Guilherme).

Herói do país e do regime salazarista português, Falcão, o ultra-patriótico lusitano, tem como grande apoio o "Puto Perdiz" - o seu (mudo e) fiel companheiro de aventuras.

Os "Capitães de Abril" (com uma apresentação semelhante aos Power Rangers) são os vilões do filme, levados por uma revolta e ódio a Falcão. Apenas este herói (se as lutas e o comunismo não lhe trocarem as voltas) poderá impedir o plano malvado deste grupo. Ao serviço do Estado Novo, o Capitão combate todas as ameaças à Nação, respondendo apenas a António de Oliveira Salazar, a figura maior do Governo da época.

Com uma dose de humor q.b., o filme é divertido e inteligente, contribuindo para um serão bem passado.

Classificado como comédia, ação e sátira, "Capitão Falcão" é um filme arrojado e provocador, que faz rir e não toma o público por estúpido, uma vez que dá leveza à história e à sua contextualização. Durante os 106 minutos de filme, para além da guerra contra os "comuninjas", há alusões a D. Afonso Henriques e a Major Alvega.

E atenção! Após os créditos - imitando a Marvel - e depois de cantarem em uníssono com o vosso par o "E Depois do Adeus", há cena que introduz uma possível sequela... É apresentado o Flamingo, enquanto o mesmo pinta as unhas.

Infelizmente, a falta de espetadores tem vindo a reduzir o número de salas com sessões do filme, pelo que na página oficial já foi solicitado a todos que se desloquem ao cinema para ver esta película. Citando a página oficial no Facebook, «está agora em 52 salas de cinema. Não irá ficar em sala muito tempo, por isso aproveitem se quiserem ver portugueses a sério a lutar».

Para permitirem a sequela e não deixarem ficar mal um filme português, visitem a sala de cinema mais próxima e, em vez de darem tanto sucesso a 50 Sombras de Grey ou a um qualquer envolvendo um romance do Nicholas Sparks, combatam a «ameaça vermelha», aliando-se ao Capitão Falcão.

Capitão Falcão
★★★★

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Momento Pipoca: Crónica (2012)


Há uns dias, fui ao shopping com a MJ e, na secção dos DVD, encontrei um filme a que assistira há bastante tempo: "Crónica" (título original: "Chronicle"). Lembrei-me do quanto esta obra me surpreendera da primeira vez que a vira e decidi trazer o disco comigo.

Em "Crónica", seguimos três rapazes que, durante uma festa, descobrem um buraco no solo onde se encontra um objeto nunca antes visto. Esta descoberta transforma os jovens, dando-lhes poderes telecinéticos . Ao longo da história, vemos o desenvolvimento destas habilidades, desde momentos mais simples, de brincadeira, até ao seu uso indevido e mortal.

O filme é apresentado como found footage (vídeos descobertos), bem ao género de "Cloverfield" e "Actividade Paranormal", o que poderia afetar a credibilidade na qualidade do filme. Contudo, "Crónica" transcende as convenções do género, desde as interpretações aos efeitos (bastante bons para um orçamento "reduzido", de 12 milhões de dólares). No entanto, esta escolha em contar a história como um documentário gravado pelo próprio protagonista limita o seu desenvolvimento. Nunca ficamos a saber o que é o tal objeto soterrado, por exemplo.

Os três atores trazem prestações fortes, onde se destaca Dane DeHaan ("Kill Your Darlings" e "O Fantástico Homem-Aranha 2"), como Andrew Detmer. DeHaan traz várias camadas a este rapaz tímido, sem amigos, violentado em casa e na escola, e com uma fúria crescente no seu interior. A ele, juntam-se as personagens de Michael B. Jordan (Steve Montgomery) e de Alex Russell (Matt Garetty).

"Crónica" é a estreia de Josh Trank no comando de uma longa-metragem. Antes disso, havia realizado alguns episódios para a série "The Kill Point". A sua realização é inteligente, quebrando os limites do found footage através de algumas ideias que inovam a forma como olhamos para o género (uma personagem usar a mente para levitar a câmara e obter planos mais grandiosos é uma delas). Sem dúvida que este filme pesou imenso quando a 20th Century Fox escolheu Trank para realizar o novo "Quarteto Fantástico", que estreia este verão.

Crónica
★★★★

sábado, 11 de abril de 2015

Momento Pipoca: Better Call Saul


Eis que chegou ao fim uma das séries mais aguardadas do ano. "Better Call Saul" (BCS) é um spin-off de "Breaking Bad" (BB), considerada uma das melhores histórias que alguma vez surgiram no pequeno ecrã.

A trama de BCS decorre seis anos antes dos eventos de BB. Aqui, seguimos o percurso de Saul Goodman, uma das mais conhecidas personagens da série original, desde que era conhecido como James McGill, um advogado à procura do seu rumo e com a vida dividida entre pequenos trabalhos no tribunal - que muito pouco rendem - e cuidar do seu irmão mais velho, Chuck.

A primeira temporada acompanha o caminho de James enquanto este, no decorrer dos episódios, se vai tornando mais confiante e perspicaz face ao mundo que o rodeia. Claro que tal não acontece sem momentos mais problemáticos, que envolvem gangues, subornos e a rivalidade com a Hamlin, Hamlin & McGill - uma grande sociedade de advogados, da qual Chuck é um dos principais membros.

Quem assistiu a BB sabe quem é Saul Goodman. Em BCS, assistimos, passo-a-passo, ao desmoronamento de McGill nesta nova identidade. Apesar da temporada não relatar todos os acontecimentos, já muito nos informa sobre o que realmente encaminhou James a adotar um rumo totalmente diferente. A melhor parte? Apesar do momento fulcral que destroça o advogado, é todo o conjunto de experiências de McGill que levam a uma mudança na sua atitude. Isto significa que todos os momentos são importantes. Saul Goodman não é o resultado de um momento, mas sim de vários.

A série não tem o mesmo tom de BB, cingindo-se mais ao humor negro. No entanto, isso não é negativo. Bem pelo contrário! Bob Odenkirk continua perfeito neste papel. É carismático, tem personalidade e sentido de humor. Se já era um prazer vê-lo no seu lado mais negro (como Saul Goodman), assistir à sua metamorfose - de alguém que quer seguir o caminho certo, para orgulhar o irmão, num ser cujo o "Eu" só importa - é delicioso.

Além de Odenkirk, regressa Jonathan Banks como Mike Ehrmantraut - outra grande personagem de BB. Apesar de já não ser nenhum "santo" no decorrer de "Better Call Saul", ficamos a conhecer melhor quem é Mike e como se transformou no grande solucionador de problemas da série original.

Em resumo, uma grande estreia para Saul a solo. No último episódio, James McGill tomou uma das decisões mais importantes no que toca ao seu futuro. Agora, espero ansiosamente pela segunda temporada, que estreia em 2016.

Better Call Saul

domingo, 8 de março de 2015

Momento Pipoca: As Cinquenta Sombras de Grey

12:26 Posted by Maria João*** , , No comments

O título de uma notícia do portal Sapo é o mote para este momento de reflexão. «Mais de 47 mil portugueses já compraram bilhete para ver As 50 Sombras de Grey».
O filme de Sam Taylor-Johnson é a adaptação cinematográfica do primeiro volume da trilogia erótica e de sucesso mundial da britânica E.L James.

Como espetadores de outros filmes fortes do género (como "Ninfomaníaca", de Lars Von Trier), e tendo em conta o facto de nenhum de nós ter lido o livro, eu e o Fábio Silva fomos ao cinema na passada quarta-feira. Entramos de mente aberta e cheia de imparcialidade para analisar, com todos os prós e contras, o enredo e a realização.
Apesar disso, reconheço que a fasquia (depois da visualização da maioria dos nomeados aos Óscares) ia demasiado elevada e era difícil conseguir igualar tudo o que tenho visto nos últimos tempos.

As minhas piores previsões confirmaram-se: o filme é bem pior do que julgava ser e, no fim, considerei que o preço do bilhete foi mal empregue!

1 - Os diálogos do filme são medonhos, talvez para se manterem fiéis à escrita de E. L. James. Podem ser comparados com um diálogo entre crianças de 3 anos, na creche, falando sobre brinquedos. Mas bem pior.

2 - O enredo e a rapidez com que tudo decorre dificilmente teria tradução na vida real. Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de Literatura Inglesa que, a pedido da sua companheira de casa, vai entrevistar o multimilionário e arrogante Christian Grey (Jamie Dornan). Em quatro dias, conhecem-se, ela perde a virgindade, ele controla-a e ela é a cobaia para as experiências fetichistas de Grey.

3 - As representações de Dakota e Jamie são pouco naturais, monótonas, fracamente expressivas e demasiado forçadas. Nada flui e o diálogo mecânico (tal como cenas em que Anastasia Steele entra no escritório de Grey com um trambolhão) contribuem para um filme demasiado "sem sal".

4- O filme é bipolar, tal como as suas personagens. Anastasia Steel, demasiado púdica em alguns momentos e adotando uma atitude de miúda pacata, passa para uma atitude de curiosidade perante os fetiches de Grey, colocando-os em prática por vontade própria. Depois, termina com um ar sonso e questionando/culpando-se (e a Christian Grey) pelos jogos sexuais em que participa.
Já ele é um homem que se descreve com uma frase de pura poesia «Eu não faço amor, eu fodo a sério» e que defende, para bem de si próprio, que não é romântico, não vai ao cinema nem janta fora. Mas, depois, demonstra a sua faceta de possessivo e controlador (com intervalos de romantismo) e vai buscar Anastasia Steele de helicóptero para um passeio, envia primeiras edições de livros, oferece-lhe um automóvel e um computador...

5 - Tanta coisa em volta dos atores que iriam representar estas personagens... Ela fica muito aquém das expetativas e confessou agora, em entrevista ao jornal "El Pais", que não é o seu corpo que surge em todas as cenas, sendo que a produção terá usado uma dupla de corpo. Ele não é nada de especial, tanto a nível facial como do restante corpo. Nem tem um ar de bad boy (ou, pelo menos, de homem misterioso) que era preciso para o filme. Mais a mais: ele tem um olho mais pequeno que outro, o que não é nada sensual.

5 - Quem esperou pelas cenas de sexo e sadomasoquismo pode esquecer qualquer idealização... É tudo demasiado soft, com poucos objetos, poucas cenas fortes, sem corpo à mostra. Quem esperava ver órgãos sexuais, vai-se cansar de tanta espera; quem esperava intensidade, achará as cenas aborrecidas.

6 - Dakota, no papel de Anastasia, morde o lábio - ao longo dos primeiros minutos de filme - cerca de 18 vezes. Sensual? Não, forçado.

7 - Por fim (last, but not least), a história enaltece o abuso das mulheres. E não pensem que sou eu que sou demasiado conservadora... A atitude arrogante, machista e dominadora de Christian Grey - tal como a violência sexual que o mesmo utiliza -, preocupando-se apenas e só com o seu prazer e satisfação pessoal, mostra que o filme não defende, apesar dos tempos que correm e das publicidades alusivas, o fim da agressão psicológica e física. O filme foi banido das salas de cinema na Malásia e na Indonésia e, noutros países orientais, algumas cenas foram censuradas.

Os pontos positivos são poucos mas existem, a saber:
- a casa do Mr Grey é de fazer inveja a qualquer pessoa que anda a pensar em criar o seu cantinho;
- algumas cenas do filme, ainda que o objetivo não seja esse, conseguem ser cómicas, tornando o filme leve e arejado o suficiente para não se ter um derrame cerebral enquanto se visualiza o mesmo;
- a banda-sonora é qualquer coisa extraordinária. É, sem dúvida, o ponto forte do filme. Arranca com uma versão do “I Put a Spell on You” pela voz da Annie Lenox, envolve Beyoncé, um toque pop com Ellie Goulding e o seu “Love Me Like You Do”, e ainda nos dá “Earned it”, dos The Weekend.

Em resumo, muito marketing e pouca qualidade. Desilude-me a cultura portuguesa (e mundial, no fundo) que se rende a filmes com esta qualidade e deixa de lado (com muito pouca receita de bilheteira e muito menos blábláblá) extraordinárias obras como Boyhood, Teoria de Tudo, Jogo da Imitação ou, numa mesma área de abordagem, Ninfomaníaca (um filme com 5 horas e meia e muito mais história para contar, tanto a nível visual como sexual e dramático).

Nota ainda para a composição da sala de cinema nesta noite de quarta-feira: meia dúzia de casais (se tanto), em que a faixa etária já roçava ou ultrpassava os 40/50 anos e uns quantos grupos de mulheres - com uma faixa entre os 20 e os 40 - que se juntaram para ver o filme. Muitos suspiros e comentários durante a película, muitos cochichos, algumas gargalhadas.

50 Sombras de Grey

(apenas pela qualidade da banda-sonora e da fotografia)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: jogo de apostas

10:03 Posted by Maria João*** , , No comments
A noite dos Óscares está aí e, como não podia deixar de ser, os autores deste blogue decidiram partilhar as suas apostas para as categorias principais.

Seguem as opiniões/apostas do Fábio Silva:

Melhor Filme
Preferência: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Aposta: Boyhood - Momentos de uma Vida

Melhor Realizador
Preferência e Aposta: Richard Linklater (Boyhood)

Melhor Ator
Preferência: Michael Keaton (Birdman)
Aposta: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

Melhor Atriz
Preferência: Rosamund Pike (Em Parte Incerta)
Aposta: Julianne Moore (O Meu Nome é Alice)

Melhor Ator Secundário
Preferência e Aposta: J.K. Simmons (Whiplash)

Melhor Atriz Secundária
Preferência e Aposta: Patricia Arquette (Boyhood)

Melhor Argumento Original
Preferência e Aposta: Grand Budapest Hotel

Melhor Argumento Adaptado
Preferência e Aposta: A Teoria de Tudo

Melhor Filme de Animação
Preferência e Aposta: Como Treinares o Teu Dragão 2

★ COMENTÁRIO: Não entendo a nomeação de "American Sniper" (um filme bastante genérico) face a obras como "Gone Girl" e "Nightcrawler". Bradley Cooper está a ocupar o espaço que deveria ser de Jake Gylenhall. Pior que isto é a completa omissão de "The Lego Movie" da corrida ao prémio de Melhor Filme de Animação.
Penso que "Boyhood" conquistará a principal estatuetas. Caso me engane, espero que a Academia tenha coragem de eleger "Birdman" ou "Budapest Hotel" em vez do comodismo e facilitismo que a escolha de "A Teoria de Tudo" pode demonstrar.


Seguem as opiniões/apostas de Maria João Vieira:

Melhor Filme
Preferência: Whiplash - Nos Limites
Aposta: Boyhood - Momentos de uma Vida

Melhor Realizador
Preferência: Richard Linklater (Boyhood)
Aposta: Alejandro González Iñárritu (Birdman)

Melhor Ator
Preferência e Aposta: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

Melhor Atriz
Preferência: Rosamund Pike (Em Parte Incerta)
Aposta: Julianne Moore (O Meu Nome é Alice)

Melhor Ator Secundário
Preferência e Aposta: J.K. Simmons (Whiplash)

Melhor Atriz Secundária
Preferência: Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Aposta: Patricia Arquette (Boyhood)

Melhor Argumento Original
Preferência:Nightcrawler
Aposta: Grand Budapest Hotel

Melhor Argumento Adaptado
Preferência: O Jogo da Imitação
Aposta: A Teoria de Tudo

Melhor Filme de Animação
Preferência e Aposta: Como Treinares o Teu Dragão 2

★ COMENTÁRIO: Das películas nomeadas para Melhor Filme, não tive oportunidade de ver "Selma" mas tenho a certeza que "American Sniper" é a mais fraca aposta. É uma nulidade e deixou de lado "Gone Girl" ou "Nightcrawler" que prendem o espetador ao ecrã e se revestem de conteúdo diferente. Talvez "Birdman" - apesar da boa cotação - seja o principal derrotado da noite.
"Grand Budapest Hotel" poderá ter lugar nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Montagem. Nota ainda para "Interstellar", que poderá vencer na categoria de efeitos visuais e edição de som; "Foxcatcher" tem tudo para vencer em Melhor Caracterização.

Momento Pipoca: Teoria de Tudo

00:13 Posted by Maria João*** , , , No comments

Assim como "O Jogo da Imitação" (crítica do Fábio Silva aqui), a obra "A Teoria de Tudo", de James Marsh, traz-nos a biografia de uma mente brilhante.

O filme decorre em torno do jovem astrofísico Stephen Hawking (interpretado por Eddie Redmayne) e de tudo aquilo que o envolve. Desde as descobertas importantes e que tornam Hawking como um dos nomes mais importantes nas ciências modernas, pelo seu romance com Jane Wide (e que trouxe descendência em fartura) até à descoberta e convivência com uma doença degenerativa - Esclerose Lateral Amiotrófica - que ainda não o atraiçoou (apesar da esperança de vida reduzida após o diagnóstico, aos 21 anos).

"A Teoria de Tudo" é uma das obras nomeadas aos Óscares. O resultado é um registo quase documental. E a receita tem tudo para ser de sucesso: tem como base uma história real (a película baseia-se no livro “Viagem ao Infinito”, escrito pela primeira esposa do cosmólogo britânico); o personagem principal retrata vários problemas/dificuldades e o filme concilia várias histórias em simultâneo, incluindo a luta de Hawking contra as suas próprias convicções e perante a doença e as adversidades que esta lhe traz, sempre com um grande toque de ateísmo e de humor.

O filme não faz abordagens ao ponto de discutir religião ou ciências e essa subtileza é um ponto favorável a James Marsh. Nota positiva também para a banda sonora e para a fotografia.

Eddie Redmayne está impecável no papel que desempenha. O ator adota não só a aparência como a postura e os jeitos do cientista. Consegue, com a redução de movimentos, concentrar toda a atuação no rosto (que transmite os sentimentos e as intenções nos grandes trechos de filme em que permanece mudo). A posição e a maneira como foram colocados os ombros durante as filmagens quase trouxeram dissabores (graves problemas de coluna) a Redmayne. Com todos os condimentos, será uma grande injustiça se o ator britânico não levar o Óscar de Melhor Ator pela intensidade e pela atuação.

Não podemos terminar sem falar de Felicity Jones (que interpreta o papel de Jane Hawking). A atriz - que participou em "O Espetacular Homem-Aranha 2" - é a estudante de Letras com quem Stephen casa e que o acompanha ao longo da doença. Apesar de aguentar firme ao sofrer com as limitações da doença do marido (e que abafam a força inicial com que aborda o casamento), Jane atravessa, no final, uma fase de cansaço decorrente dos cuidados ao marido e da sua ausência enquanto mulher mas presença enquanto mãe e esposa.

Uma curiosidade: Stephen Hawking emprestou a sua própria cadeira de rodas para a gravação do filme e ainda visitou o set de filmagens, demonstrando apoio e aprovação.

Uma nota negativa: o filme centra-se demasiado no romance entre Stephen e Jane. Apesar de não se transformar num drama lamechas, poderia ter sido dada mais atenção ao percurso académico de Hawking.

CLASSIFICAÇÃO:
The Theory of Everything
★★★★★

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: O Jogo da Imitação


O biopic continua a ser um género bastante acreditado entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. É comum encontramos algum filme deste género entre o lote de nomeados para o Óscar de Melhor Filme. Em 2015, são quatro (em oito)!

Em "O Jogo da Imitação" ("The Imitation Game") voltamos atrás no tempo, para a II Guerra Mundial. Nesta obra, seguimos Alan Turing, um génio cuja importância altera o rumo do conflito a favor do Reino Unido e seus aliados.

O argumento toma algumas liberdades criativas face aos reais acontecimentos que se passaram neste período de tempo. No entanto, isso não impede o filme de ser uma obra intensa e cativante durante toda a sua duração. Por baixo das tentativas de criar um método para descodificar o sistema de encriptação da máquina ENIGMA, usada pela Alemanha nazi, são as lutas pessoais dos protagonistas que dão um maior alento à história.

Benedict Cumberbatch é soberbo na pele de Turing. Começamos com alguém pouco sociável, às vezes insultuoso para aqueles que o rodeiam, e tremendamente confiante no seu génio. Ao longo do filme, Cumberbatch revela a verdadeira face do génio: um homem com dúvidas, medos e, afinal, um bom coração.

Do outro lado, assistimos ao regresso de Keira Knightley aos focos de atenção. Joan Clarke, colega de Turing, é um ponto de luta contra as convenções da época: uma mulher. com ideias firmes, que anseia por algo mais do que uma vida de dona de casa. Knightley traz a Clarke um caráter forte, decidido e moderno.

De notar que o ângulo da homossexualidade do protagonista é tratado de uma forma subtil, sem grandes excessos. O realizador, Morten Tyldum (nomeado para o Óscar), mostra um Reino Unido fechado a esta questão, com consequências dramáticas para Turing. E, aqui, coloca-se a questão: é justo que um homem, que tanto contribuiu para o seu país, sofra tanto pela intolerância sexual da sua pátria?

Apesar de seguir as tradicionais convenções do género biográfico, "O Jogo da Imitação" tem tudo para ser um ótimo filme: baseia-se numa história forte (apesar de triste), decorre numa época negra, conta com ótimas prestações (Cumberbatch é grande) e levanta grandes questões morais (tradição, feminismo, homossexualidade e intolerância).

Ainda não vi "Selma" mas, entre os restantes três biopics, "O Jogo da Imitação" é o melhor, em termos gerais. "A Teoria de Tudo" bate os restantes nas prestações de Eddie Redmayne e Felicity Jones, mas a história não tem um ritmo tão bom. "American Sniper" é, sinceramente, o pior filme do lote dos oito nomeados. Clint Eastwood já fez muito melhor.

O Jogo da Imitação
★★★★★

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: BOYHOOD

20:38 Posted by Maria João*** , , , No comments

"Boyhood" é um filme americano que demorou doze anos a ser filmado; a produção começou em 2002 e terminou nos finais de 2013. E os doze anos que separam a infância da juventude de Mason Jr. levam o espetador a acompanhar, de perto, as alegrias e os dramas da personagem principal e dos seus familiares, verificando o crescimento e as mudanças naturais dos atores que dão vida ao filme.

Com um elenco de luxo, a história de Mason Jr. (Ellan Coltrane) passa pelo divórcio dos seus pais - que tentam, com uma relação cordial, criá-lo com o mínimo de incómodos possíveis -, a relação com a sua irmã (que passa da infância irritante a uma adolescência problemática), e o percurso escolar até à entrada para a faculdade, que deixa a família mais próxima com uma grande manifestação de orgulho. O sub-título "Momentos de uma vida" não é por acaso...

Apesar da personagem principal, o filme centra-se no dia-a-dia do enredo familiar, passando pelas mudanças frequentes de lar e as relações instáveis da mãe de Mason (Patrícia Arquette, "Médium"), com os problemas alcoólicos e violentos dos seus companheiros à mistura.

Quando o final do filme se aproxima, são notórias as semelhanças a nível visual entre Mason Jr. e o seu progenitor (Ethan Hawke), o que resulta numa grande união entre a narrativa e o tempo cronológico.

Do ponto de vista cinematográfico, o projeto de Richard Linklater (trilogia de "Antes do Amanhecer" e "Escola de Rock") é interessante e criou uma grande expetativa. As passagens temporais são bem pensadas, fazendo transições justificadas e que inserem referências à cultura representada, desde as eleições, a evolução da Apple e dos videojogos e a loucura Harry Potter.

A nomeação (e o prémio, caso seja arrecadado) para Melhor Realização é de uma tremenda justiça. Primeiro, pela complexidade que a rodagem deste filme envolveu; segundo, pelo risco que Linklater correu: os atores desistirem/perderem o interessse no projeto ou levar o espetador a dissipar-se a meio do filme.

A duração extensa do filme é justificada e não cansa. Pelo contrário, a história flui naturalmente e não pesa o tempo passado na sala de cinema.

CLASSIFICAÇÃO:
Boyhood
★★★★

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: Marvel Cinematic Universe - Fase 1

Foto: HD Wallpapers
Depois da Maria João dar a sua opinião sobre "Whiplash", chegou a altura de dar o meu primeiro contributo para o Songs and Popcorns. Desta vez, falaremos de super-heróis!

Apesar da Marvel dar a sua cara na Sétima Arte há já vários anos, o seu Universo Cinematográfico (MCU) - com filmes criados pela Marvel Studios e não por outras companhias - teve o seu início em 2008. E falamos num mundo interligado, onde nenhum filme é independente da dimensão onde decorrem os restantes. Isto lançou um novo modelo no género, esquema esse que outras entidades (DC Comics/Warner Bros, Sony e FOX) estão a tentar implementar, mas sem a organização que a Marvel tem demonstrado. Isto não significa que tais universos não venham a ter qualidade, exceto o da Sony, claro (conseguiram estragar a série "Homem-Aranha" duas vezes).

Vamos então avaliar a Fase 1 do MCU (2008-2012), a que tudo começou.

O milionário que, afinal, tem coração.

A ideia não podia ter começado de melhor forma. Estavamos em 2008 e "Homem de Ferro" acabava de chegar aos cinemas. O filme foi um êxito entre os críticos e um sucesso de bilheteira. Robert Downey Jr. interpretava, de forma brilhante, Tony Stark, um milionário egocêntrico, dono da maior empresa de armamento do mundo, No entanto, o seu mundo pessoal acabaria por ruir depois de ser raptado por forças terroristas no Médio-Oriente e ter a vida ameaçada com estilhaços a tentar penetrar no seu coração. Obrigado a construir uma poderosa arma, viria a inventar um fato revolucionário, cujo objetivo era ajudá-lo a escapar dos seus captores. A experiência corre quase na perfeição e a atitude de Stark para com as suas ações.

"Homem de Ferro" lançou as bases do MCU e continua a estar entre os melhores filmes deste universo. A sequela não conseguiu manter a mesma qualidade, mas continua a ser uma obra de bom entretenimento.

Redimir o monstro verde

Também em 2008, surge "O Incrível Hulk", com Edward Norton no papel de Bruce Banner. O filme mais sério da fase 1 é também um dos menos divulgados. Não teve grandes retornos na bilheteira e os críticos não ficaram tão entusiasmados como em "Homem de Ferro",

Apesar de não ser tão bom como a rampa de lançamento do MCU, "Hulk" é melhor que a adaptação de 2003, realizada por Ang Lee. Norton é bom no papel Bruce Banner, um homem que, vítima de um acidente com raios gama, se transforma num monstro agressivo. Liv Tyler, apesar de poder ser melhor, é uma Betty Ross que cumpre, face ao que lhe dão para fazer. A Tim Roth também deveria ter um pouco mais de desenvolvimento como Emil Blonsky mas, face a outros vilões, o seu tempo de ecrã e as motivações que movem a personagem são satisfatórias.

Tenho pena que só Banner/Hulk tenham transitado para outros filmes e que Betty Ross e o seu pai, o General Thunderbolt Ross, tenham caído no esquecimento dos produtores.

A Marvel expande-se

"Thor", lançado em 2011, é o filme menos conseguido da Fase 1. Entretem bastante, tem ideias e personagens interessantes e um dos melhores vilões do MCU. No entanto, há algo no argumento e realização - o humor um pouco excessivo e sem sentido e algumas personagens menos interessantes - que o deixam abaixo dos demais e que a sequela não conseguiu corrigir, muito pelo contrário.

Chris Hemsworth veste a pele de Thor, um asgardiano - seres extraterrestres, de Asgard, que dominam e protegem os nove reinos, entre os quais, a Terra. Devido à sua natureza combativa e um pouco imatura, Thor provoca o reatar de uma guerra antiga e é expulso para Midgard (Terra). Aqui, terá de se habituar aos costumes dos humanos, na companhia de Jane Foster (Natalie Portman) e seus companheiros, enquanto Loki (Tom Hiddleston) procura dominar Asgard.

Com "Thor", a Marvel inicia a sua expansão para o universo cósmico (que tem o seu pleno em "Guardiões da Galáxia") e aumenta o leque de possibilidades para o futuro do MCU.

Regressar ao passado

O último filme a "solo" da Marvel Studios é "Capitão América: O Primeiro Vingador". Nesta obra, voltamos à II Guerra Mundial. Aqui, seguimos Steve Rogers (Chris Evans), um jovem com uma estrutura corporal fraca, mas um espírito fortíssimo e um bom coração.

Rogers toma parte numa experiência para criar um exército de super-soldados. Apesar do teste correr bem, o protagonista acaba por ser o único a ter estas capacidades e torna-se no Capitão América, uma espécie de atração turística para o povo americano. Mas Steve quer fazer mais pela sua nação.

"Capitão" volta a colocar o MCU no bom caminho. Evans cumpre o seu papel e é acompanhado por um bom grupo de atores, onde se destacam Haley Atwell, Dominic Cooper, Stanley Tucci, Hugo Weaving e Tommy Lee Jones. O filme não é perfeito, mas é bom o suficiente para nos deixar a ansiar o climax desta Fase 1.

O culminar de tudo

Joss Whedon tinha nas mãos a enorme responsabilidade de juntar, num único filme, todos os heróis que tinham sido apresentados anteriormente. A balança pendia para os dois lados: ou o filme era um sucesso, ou um perfeito desapontamento ("Homem-Aranha 3" tinha deixado uma má impressão quanto a obras com muitos heróis/vilões de peso). "Os Vingadores" superou todas as expectativas!

Whedon conseguiu encontrar o equilíbrio para todos os heróis, desenvolvendo-os ainda mais, criou uma verdadeira ameaça que os obrigasse a unir esforços e ainda arranjou tempo para um terceiro ato que é um hino ao género da banda-desenhada , Isto tudo em 140 minutos, Uma obra notável.

O último filme da Fase 1 conseguiu centrar todas as atenções no que a Marvel trouxera e e ainda poderia dar no futuro.

Com "Os Vingadores", fecha-se a era das chamadas histórias de origem. Daqui em diante, os filmes viriam a focar-se mais na história presente e futura, deixando as raízes das personagens para segundo plano, mas sem nunca as esquecer ("Guardiões" é um bom exemplo disso).

A Fase 1 do Universo Cinematográfico da Marvel veio despertar uma nova corrida ao investimento nos super-heróis, Por enquanto, a empresa da Disney continua na frente. A DC Comics tenta apanhar o comboio mas, como o lançamento do seu universo foi tão repentino, teremos que esperar pelo desenrolar dos seus lançamentos.

Por enquanto, a Fase 2 do MCU já está a terminar. Com os seus altos e baixos, fecha em 2015 com "Os Vingadores: A Era de Ultron" e "Ant-Man". Será que fechará com chave de ouro? Quem sabe...

Classificação:
★★★★

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: WHIPLASH

22:34 Posted by Maria João*** , , , No comments
Quem vê o trailer de “Whiplash” não vê, à partida e naqueles cerca de 120 segundos, nada que desperte a atenção nem que imagine o que está reservado para os 107 minutos de duração do filme.

“Whiplash” é um filme musical. Intenso. Tão intenso como as personagens que representam os papéis prinicipais. Não os imagino entregues a outros atores.

A história contada é a de Andrew (Miles Teller, "Divergent" e "21 and over"), um promissor baterista que luta para chegar a um lugar de topo na música jazz. Mas esta luta envolve um misto de concorrência e muito trabalho árduo, com gritos, suores e sangue à mistura.

O professor do Conservatório, Fletcher, (J.K.Simmons, "Spider-Man") é o balde de água fria a cada passo que o jovem Andrew dá, duvidando das capacidades e colocando em causa cada nota entoada na bateria.

Esta personagem arrogante (e que em muito se associa à palavra "mentor") é motivo de uma nomeação para os Óscares, como ator secundário. A distinção é merecida, tal a interpretação e intensidade que se sente a cada palavra proferida e os sentimentos que desperta nos espetadores.

O filme é uma autêntica surpresa, a cada pedaço de tela. E não há lugar para desafinações. Aquilo que parece uma premissa básica, sem grandes rodeios, dá lugar a uma envolvência que só termina com os últimos minutos de filme. (Sim, o final do filme vale cada cêntimo do bilhete)

As nomeações para os Óscares são mais que merecidas. Não só pelo tema abordado que, ao fim e ao cabo, é um bocadinho de cada um dos nossos trabalhos e do nosso dia-a-dia, mas pela forma como o mesmo é colocado na fita.

CLASSIFICAÇÃO:
Whiplash
★★★★★