domingo, 3 de maio de 2015

Momento Pipoca: Capitão Falcão


Ontem, foi dia de cinema. A noite foi passada no Parque Nascente e teve direito a sessão bem portuguesa.

"Capitão Falcão" é o super-herói que vai salvar o país dos comunistas («a ameaça vermelha») e das feministas («porque não há nada pior do que uma mulher que pensa que é um homem»).

Gonçalo Waddington interpreta o protagonista da história (que tem traços de machista e pai autoritário) e cujo mestre foi o Capitão Gaivota (interpretado por Miguel Guilherme).

Herói do país e do regime salazarista português, Falcão, o ultra-patriótico lusitano, tem como grande apoio o "Puto Perdiz" - o seu (mudo e) fiel companheiro de aventuras.

Os "Capitães de Abril" (com uma apresentação semelhante aos Power Rangers) são os vilões do filme, levados por uma revolta e ódio a Falcão. Apenas este herói (se as lutas e o comunismo não lhe trocarem as voltas) poderá impedir o plano malvado deste grupo. Ao serviço do Estado Novo, o Capitão combate todas as ameaças à Nação, respondendo apenas a António de Oliveira Salazar, a figura maior do Governo da época.

Com uma dose de humor q.b., o filme é divertido e inteligente, contribuindo para um serão bem passado.

Classificado como comédia, ação e sátira, "Capitão Falcão" é um filme arrojado e provocador, que faz rir e não toma o público por estúpido, uma vez que dá leveza à história e à sua contextualização. Durante os 106 minutos de filme, para além da guerra contra os "comuninjas", há alusões a D. Afonso Henriques e a Major Alvega.

E atenção! Após os créditos - imitando a Marvel - e depois de cantarem em uníssono com o vosso par o "E Depois do Adeus", há cena que introduz uma possível sequela... É apresentado o Flamingo, enquanto o mesmo pinta as unhas.

Infelizmente, a falta de espetadores tem vindo a reduzir o número de salas com sessões do filme, pelo que na página oficial já foi solicitado a todos que se desloquem ao cinema para ver esta película. Citando a página oficial no Facebook, «está agora em 52 salas de cinema. Não irá ficar em sala muito tempo, por isso aproveitem se quiserem ver portugueses a sério a lutar».

Para permitirem a sequela e não deixarem ficar mal um filme português, visitem a sala de cinema mais próxima e, em vez de darem tanto sucesso a 50 Sombras de Grey ou a um qualquer envolvendo um romance do Nicholas Sparks, combatam a «ameaça vermelha», aliando-se ao Capitão Falcão.

Capitão Falcão
★★★★

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Momento Pipoca: Crónica (2012)


Há uns dias, fui ao shopping com a MJ e, na secção dos DVD, encontrei um filme a que assistira há bastante tempo: "Crónica" (título original: "Chronicle"). Lembrei-me do quanto esta obra me surpreendera da primeira vez que a vira e decidi trazer o disco comigo.

Em "Crónica", seguimos três rapazes que, durante uma festa, descobrem um buraco no solo onde se encontra um objeto nunca antes visto. Esta descoberta transforma os jovens, dando-lhes poderes telecinéticos . Ao longo da história, vemos o desenvolvimento destas habilidades, desde momentos mais simples, de brincadeira, até ao seu uso indevido e mortal.

O filme é apresentado como found footage (vídeos descobertos), bem ao género de "Cloverfield" e "Actividade Paranormal", o que poderia afetar a credibilidade na qualidade do filme. Contudo, "Crónica" transcende as convenções do género, desde as interpretações aos efeitos (bastante bons para um orçamento "reduzido", de 12 milhões de dólares). No entanto, esta escolha em contar a história como um documentário gravado pelo próprio protagonista limita o seu desenvolvimento. Nunca ficamos a saber o que é o tal objeto soterrado, por exemplo.

Os três atores trazem prestações fortes, onde se destaca Dane DeHaan ("Kill Your Darlings" e "O Fantástico Homem-Aranha 2"), como Andrew Detmer. DeHaan traz várias camadas a este rapaz tímido, sem amigos, violentado em casa e na escola, e com uma fúria crescente no seu interior. A ele, juntam-se as personagens de Michael B. Jordan (Steve Montgomery) e de Alex Russell (Matt Garetty).

"Crónica" é a estreia de Josh Trank no comando de uma longa-metragem. Antes disso, havia realizado alguns episódios para a série "The Kill Point". A sua realização é inteligente, quebrando os limites do found footage através de algumas ideias que inovam a forma como olhamos para o género (uma personagem usar a mente para levitar a câmara e obter planos mais grandiosos é uma delas). Sem dúvida que este filme pesou imenso quando a 20th Century Fox escolheu Trank para realizar o novo "Quarteto Fantástico", que estreia este verão.

Crónica
★★★★

sábado, 11 de abril de 2015

Momento Pipoca: Better Call Saul


Eis que chegou ao fim uma das séries mais aguardadas do ano. "Better Call Saul" (BCS) é um spin-off de "Breaking Bad" (BB), considerada uma das melhores histórias que alguma vez surgiram no pequeno ecrã.

A trama de BCS decorre seis anos antes dos eventos de BB. Aqui, seguimos o percurso de Saul Goodman, uma das mais conhecidas personagens da série original, desde que era conhecido como James McGill, um advogado à procura do seu rumo e com a vida dividida entre pequenos trabalhos no tribunal - que muito pouco rendem - e cuidar do seu irmão mais velho, Chuck.

A primeira temporada acompanha o caminho de James enquanto este, no decorrer dos episódios, se vai tornando mais confiante e perspicaz face ao mundo que o rodeia. Claro que tal não acontece sem momentos mais problemáticos, que envolvem gangues, subornos e a rivalidade com a Hamlin, Hamlin & McGill - uma grande sociedade de advogados, da qual Chuck é um dos principais membros.

Quem assistiu a BB sabe quem é Saul Goodman. Em BCS, assistimos, passo-a-passo, ao desmoronamento de McGill nesta nova identidade. Apesar da temporada não relatar todos os acontecimentos, já muito nos informa sobre o que realmente encaminhou James a adotar um rumo totalmente diferente. A melhor parte? Apesar do momento fulcral que destroça o advogado, é todo o conjunto de experiências de McGill que levam a uma mudança na sua atitude. Isto significa que todos os momentos são importantes. Saul Goodman não é o resultado de um momento, mas sim de vários.

A série não tem o mesmo tom de BB, cingindo-se mais ao humor negro. No entanto, isso não é negativo. Bem pelo contrário! Bob Odenkirk continua perfeito neste papel. É carismático, tem personalidade e sentido de humor. Se já era um prazer vê-lo no seu lado mais negro (como Saul Goodman), assistir à sua metamorfose - de alguém que quer seguir o caminho certo, para orgulhar o irmão, num ser cujo o "Eu" só importa - é delicioso.

Além de Odenkirk, regressa Jonathan Banks como Mike Ehrmantraut - outra grande personagem de BB. Apesar de já não ser nenhum "santo" no decorrer de "Better Call Saul", ficamos a conhecer melhor quem é Mike e como se transformou no grande solucionador de problemas da série original.

Em resumo, uma grande estreia para Saul a solo. No último episódio, James McGill tomou uma das decisões mais importantes no que toca ao seu futuro. Agora, espero ansiosamente pela segunda temporada, que estreia em 2016.

Better Call Saul
★★★★★

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Momento Clave de Sol: AZEITONAS - "Serviço Ocasional" (CD/DVD)

Quase um ano e meio depois do concerto no Coliseu do Porto, eis que "Serviço Ocasional" da banda portuguesa Azeitonas chega à paragem final. Ou melhor dizendo, às estantes para venda nas grandes superfícies comerciais.

O CD + DVD foi gravado ao vivo no concerto de 02 de Novembro de 2013, na sala mítica portuense e perante casa cheia, completamente esgotada.

Os Azeitonas - AZ formaram-se em 2002 e são atualmente constituídos por Marlon na voz, Nena nos coros, Miguel AJ (Araújo) na guitarra e Salsa no piano proporcionam aproximadamente 130 minutos de música portuguesa de qualidade e que fica no ouvido a cada compasso.

Em cima de palco, para além de banda principal, há um conjunto de músicos que tem notas, compassos e instrumentos no sangue. Desde um baterista incansável até um grupo de sopro cheio de energia e boa disposição, passando pelo baixista e pelo (maravilhoso) percussionista Megre Beça, cheio de sabedoria.

A banda arranca num "Pander" cheio de vivacidade e convida-nos a entrar no "Café Hollywood" para uma curta paragem. Dizem-nos que "Whatever, Tanto Faz" mas levam-nos até à infância e relembram-nos que "Nos Desenhos Animados (Nunca acaba mal)".

Caso haja alguma dúvida (e de nortenhos que são), obrigam o ouvinte/espetador a confirmar que "Lisboa Não é Hollywood" numa música cheia de power e, com uma interpretação incrível, perguntam se alguém quer ir com eles "ver os Aviões".

Mas, se não quiser ir, não faz mal. Não precisa de ficar "Tonto de Ti" e perguntar "Quem és tu Miúda". Sim, essa miúda que dança ao som de "Ray-Dee-Oh". A frase mágica para que isso aconteça é dizer "Dança Menina, Dança" enquanto acompanha a batida e abana o esqueleto. É impossível ficar parado.

Com a presença de convidados que se integraram no concerto de uma forma tão fluída que quase não se notava a sua presença, eis que - com a ajuda da Fanfarra Kaustika - surge uma reprodução única (que, provavelmente, não se tornará a repetir pela complexidade musical que envolve) de "Circo Zen". O hino da vida de um artista circense ou da vida de qualquer um de nós é o fecho de um concerto que, para quem esteve presente, teve tudo de especial e memorável.

Mas não há motivo para preocupações. Há sempre um "Na Na Na" para entoar na "Rua da Alegria" ou na Rua Passos Manuel quase até à Avenida dos Aliados, numa marcha liderada pela banda.

Feito o balanço, há que afirmar: a eternização deste concerto é importante para Os Azeitonas, que têm feito um sem grandes sobressaltos e com pouca divulgação inicialmente (quando comparada com outros artistas), e para os fãs, que mereciam um documento comprovativo da qualidade que o grupo possui.

Há boa música portuguesa, cantada em português. Os Azeitonas são exemplo disso e arrastam multidões. Conta também com um grupo de fãs (Os Azeitolas) que acompanha a banda, de Bragança até Faro, percorrendo muitos quilómetros para ouvir estas e outras músicas, como "Rubi", "Salão América", "Mulheres Nuas", entre outras. É caso para dizer que é de "Angelus".

domingo, 8 de março de 2015

Momento Pipoca: As Cinquenta Sombras de Grey

12:26 Posted by Maria João*** , , No comments

O título de uma notícia do portal Sapo é o mote para este momento de reflexão. «Mais de 47 mil portugueses já compraram bilhete para ver As 50 Sombras de Grey».
O filme de Sam Taylor-Johnson é a adaptação cinematográfica do primeiro volume da trilogia erótica e de sucesso mundial da britânica E.L James.

Como espetadores de outros filmes fortes do género (como "Ninfomaníaca", de Lars Von Trier), e tendo em conta o facto de nenhum de nós ter lido o livro, eu e o Fábio Silva fomos ao cinema na passada quarta-feira. Entramos de mente aberta e cheia de imparcialidade para analisar, com todos os prós e contras, o enredo e a realização.
Apesar disso, reconheço que a fasquia (depois da visualização da maioria dos nomeados aos Óscares) ia demasiado elevada e era difícil conseguir igualar tudo o que tenho visto nos últimos tempos.

As minhas piores previsões confirmaram-se: o filme é bem pior do que julgava ser e, no fim, considerei que o preço do bilhete foi mal empregue!

1 - Os diálogos do filme são medonhos, talvez para se manterem fiéis à escrita de E. L. James. Podem ser comparados com um diálogo entre crianças de 3 anos, na creche, falando sobre brinquedos. Mas bem pior.

2 - O enredo e a rapidez com que tudo decorre dificilmente teria tradução na vida real. Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de Literatura Inglesa que, a pedido da sua companheira de casa, vai entrevistar o multimilionário e arrogante Christian Grey (Jamie Dornan). Em quatro dias, conhecem-se, ela perde a virgindade, ele controla-a e ela é a cobaia para as experiências fetichistas de Grey.

3 - As representações de Dakota e Jamie são pouco naturais, monótonas, fracamente expressivas e demasiado forçadas. Nada flui e o diálogo mecânico (tal como cenas em que Anastasia Steele entra no escritório de Grey com um trambolhão) contribuem para um filme demasiado "sem sal".

4- O filme é bipolar, tal como as suas personagens. Anastasia Steel, demasiado púdica em alguns momentos e adotando uma atitude de miúda pacata, passa para uma atitude de curiosidade perante os fetiches de Grey, colocando-os em prática por vontade própria. Depois, termina com um ar sonso e questionando/culpando-se (e a Christian Grey) pelos jogos sexuais em que participa.
Já ele é um homem que se descreve com uma frase de pura poesia «Eu não faço amor, eu fodo a sério» e que defende, para bem de si próprio, que não é romântico, não vai ao cinema nem janta fora. Mas, depois, demonstra a sua faceta de possessivo e controlador (com intervalos de romantismo) e vai buscar Anastasia Steele de helicóptero para um passeio, envia primeiras edições de livros, oferece-lhe um automóvel e um computador...

5 - Tanta coisa em volta dos atores que iriam representar estas personagens... Ela fica muito aquém das expetativas e confessou agora, em entrevista ao jornal "El Pais", que não é o seu corpo que surge em todas as cenas, sendo que a produção terá usado uma dupla de corpo. Ele não é nada de especial, tanto a nível facial como do restante corpo. Nem tem um ar de bad boy (ou, pelo menos, de homem misterioso) que era preciso para o filme. Mais a mais: ele tem um olho mais pequeno que outro, o que não é nada sensual.

5 - Quem esperou pelas cenas de sexo e sadomasoquismo pode esquecer qualquer idealização... É tudo demasiado soft, com poucos objetos, poucas cenas fortes, sem corpo à mostra. Quem esperava ver órgãos sexuais, vai-se cansar de tanta espera; quem esperava intensidade, achará as cenas aborrecidas.

6 - Dakota, no papel de Anastasia, morde o lábio - ao longo dos primeiros minutos de filme - cerca de 18 vezes. Sensual? Não, forçado.

7 - Por fim (last, but not least), a história enaltece o abuso das mulheres. E não pensem que sou eu que sou demasiado conservadora... A atitude arrogante, machista e dominadora de Christian Grey - tal como a violência sexual que o mesmo utiliza -, preocupando-se apenas e só com o seu prazer e satisfação pessoal, mostra que o filme não defende, apesar dos tempos que correm e das publicidades alusivas, o fim da agressão psicológica e física. O filme foi banido das salas de cinema na Malásia e na Indonésia e, noutros países orientais, algumas cenas foram censuradas.

Os pontos positivos são poucos mas existem, a saber:
- a casa do Mr Grey é de fazer inveja a qualquer pessoa que anda a pensar em criar o seu cantinho;
- algumas cenas do filme, ainda que o objetivo não seja esse, conseguem ser cómicas, tornando o filme leve e arejado o suficiente para não se ter um derrame cerebral enquanto se visualiza o mesmo;
- a banda-sonora é qualquer coisa extraordinária. É, sem dúvida, o ponto forte do filme. Arranca com uma versão do “I Put a Spell on You” pela voz da Annie Lenox, envolve Beyoncé, um toque pop com Ellie Goulding e o seu “Love Me Like You Do”, e ainda nos dá “Earned it”, dos The Weekend.

Em resumo, muito marketing e pouca qualidade. Desilude-me a cultura portuguesa (e mundial, no fundo) que se rende a filmes com esta qualidade e deixa de lado (com muito pouca receita de bilheteira e muito menos blábláblá) extraordinárias obras como Boyhood, Teoria de Tudo, Jogo da Imitação ou, numa mesma área de abordagem, Ninfomaníaca (um filme com 5 horas e meia e muito mais história para contar, tanto a nível visual como sexual e dramático).

Nota ainda para a composição da sala de cinema nesta noite de quarta-feira: meia dúzia de casais (se tanto), em que a faixa etária já roçava ou ultrpassava os 40/50 anos e uns quantos grupos de mulheres - com uma faixa entre os 20 e os 40 - que se juntaram para ver o filme. Muitos suspiros e comentários durante a película, muitos cochichos, algumas gargalhadas.

50 Sombras de Grey
★
(apenas pela qualidade da banda-sonora e da fotografia)