domingo, 8 de março de 2015

Momento Pipoca: As Cinquenta Sombras de Grey

12:26 Posted by Maria João*** , , No comments

O título de uma notícia do portal Sapo é o mote para este momento de reflexão. «Mais de 47 mil portugueses já compraram bilhete para ver As 50 Sombras de Grey».
O filme de Sam Taylor-Johnson é a adaptação cinematográfica do primeiro volume da trilogia erótica e de sucesso mundial da britânica E.L James.

Como espetadores de outros filmes fortes do género (como "Ninfomaníaca", de Lars Von Trier), e tendo em conta o facto de nenhum de nós ter lido o livro, eu e o Fábio Silva fomos ao cinema na passada quarta-feira. Entramos de mente aberta e cheia de imparcialidade para analisar, com todos os prós e contras, o enredo e a realização.
Apesar disso, reconheço que a fasquia (depois da visualização da maioria dos nomeados aos Óscares) ia demasiado elevada e era difícil conseguir igualar tudo o que tenho visto nos últimos tempos.

As minhas piores previsões confirmaram-se: o filme é bem pior do que julgava ser e, no fim, considerei que o preço do bilhete foi mal empregue!

1 - Os diálogos do filme são medonhos, talvez para se manterem fiéis à escrita de E. L. James. Podem ser comparados com um diálogo entre crianças de 3 anos, na creche, falando sobre brinquedos. Mas bem pior.

2 - O enredo e a rapidez com que tudo decorre dificilmente teria tradução na vida real. Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de Literatura Inglesa que, a pedido da sua companheira de casa, vai entrevistar o multimilionário e arrogante Christian Grey (Jamie Dornan). Em quatro dias, conhecem-se, ela perde a virgindade, ele controla-a e ela é a cobaia para as experiências fetichistas de Grey.

3 - As representações de Dakota e Jamie são pouco naturais, monótonas, fracamente expressivas e demasiado forçadas. Nada flui e o diálogo mecânico (tal como cenas em que Anastasia Steele entra no escritório de Grey com um trambolhão) contribuem para um filme demasiado "sem sal".

4- O filme é bipolar, tal como as suas personagens. Anastasia Steel, demasiado púdica em alguns momentos e adotando uma atitude de miúda pacata, passa para uma atitude de curiosidade perante os fetiches de Grey, colocando-os em prática por vontade própria. Depois, termina com um ar sonso e questionando/culpando-se (e a Christian Grey) pelos jogos sexuais em que participa.
Já ele é um homem que se descreve com uma frase de pura poesia «Eu não faço amor, eu fodo a sério» e que defende, para bem de si próprio, que não é romântico, não vai ao cinema nem janta fora. Mas, depois, demonstra a sua faceta de possessivo e controlador (com intervalos de romantismo) e vai buscar Anastasia Steele de helicóptero para um passeio, envia primeiras edições de livros, oferece-lhe um automóvel e um computador...

5 - Tanta coisa em volta dos atores que iriam representar estas personagens... Ela fica muito aquém das expetativas e confessou agora, em entrevista ao jornal "El Pais", que não é o seu corpo que surge em todas as cenas, sendo que a produção terá usado uma dupla de corpo. Ele não é nada de especial, tanto a nível facial como do restante corpo. Nem tem um ar de bad boy (ou, pelo menos, de homem misterioso) que era preciso para o filme. Mais a mais: ele tem um olho mais pequeno que outro, o que não é nada sensual.

5 - Quem esperou pelas cenas de sexo e sadomasoquismo pode esquecer qualquer idealização... É tudo demasiado soft, com poucos objetos, poucas cenas fortes, sem corpo à mostra. Quem esperava ver órgãos sexuais, vai-se cansar de tanta espera; quem esperava intensidade, achará as cenas aborrecidas.

6 - Dakota, no papel de Anastasia, morde o lábio - ao longo dos primeiros minutos de filme - cerca de 18 vezes. Sensual? Não, forçado.

7 - Por fim (last, but not least), a história enaltece o abuso das mulheres. E não pensem que sou eu que sou demasiado conservadora... A atitude arrogante, machista e dominadora de Christian Grey - tal como a violência sexual que o mesmo utiliza -, preocupando-se apenas e só com o seu prazer e satisfação pessoal, mostra que o filme não defende, apesar dos tempos que correm e das publicidades alusivas, o fim da agressão psicológica e física. O filme foi banido das salas de cinema na Malásia e na Indonésia e, noutros países orientais, algumas cenas foram censuradas.

Os pontos positivos são poucos mas existem, a saber:
- a casa do Mr Grey é de fazer inveja a qualquer pessoa que anda a pensar em criar o seu cantinho;
- algumas cenas do filme, ainda que o objetivo não seja esse, conseguem ser cómicas, tornando o filme leve e arejado o suficiente para não se ter um derrame cerebral enquanto se visualiza o mesmo;
- a banda-sonora é qualquer coisa extraordinária. É, sem dúvida, o ponto forte do filme. Arranca com uma versão do “I Put a Spell on You” pela voz da Annie Lenox, envolve Beyoncé, um toque pop com Ellie Goulding e o seu “Love Me Like You Do”, e ainda nos dá “Earned it”, dos The Weekend.

Em resumo, muito marketing e pouca qualidade. Desilude-me a cultura portuguesa (e mundial, no fundo) que se rende a filmes com esta qualidade e deixa de lado (com muito pouca receita de bilheteira e muito menos blábláblá) extraordinárias obras como Boyhood, Teoria de Tudo, Jogo da Imitação ou, numa mesma área de abordagem, Ninfomaníaca (um filme com 5 horas e meia e muito mais história para contar, tanto a nível visual como sexual e dramático).

Nota ainda para a composição da sala de cinema nesta noite de quarta-feira: meia dúzia de casais (se tanto), em que a faixa etária já roçava ou ultrpassava os 40/50 anos e uns quantos grupos de mulheres - com uma faixa entre os 20 e os 40 - que se juntaram para ver o filme. Muitos suspiros e comentários durante a película, muitos cochichos, algumas gargalhadas.

50 Sombras de Grey
★
(apenas pela qualidade da banda-sonora e da fotografia)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: jogo de apostas

10:03 Posted by Maria João*** , , No comments
A noite dos Óscares está aí e, como não podia deixar de ser, os autores deste blogue decidiram partilhar as suas apostas para as categorias principais.

Seguem as opiniões/apostas do Fábio Silva:

Melhor Filme
Preferência: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Aposta: Boyhood - Momentos de uma Vida

Melhor Realizador
Preferência e Aposta: Richard Linklater (Boyhood)

Melhor Ator
Preferência: Michael Keaton (Birdman)
Aposta: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

Melhor Atriz
Preferência: Rosamund Pike (Em Parte Incerta)
Aposta: Julianne Moore (O Meu Nome é Alice)

Melhor Ator Secundário
Preferência e Aposta: J.K. Simmons (Whiplash)

Melhor Atriz Secundária
Preferência e Aposta: Patricia Arquette (Boyhood)

Melhor Argumento Original
Preferência e Aposta: Grand Budapest Hotel

Melhor Argumento Adaptado
Preferência e Aposta: A Teoria de Tudo

Melhor Filme de Animação
Preferência e Aposta: Como Treinares o Teu Dragão 2

★ COMENTÁRIO: Não entendo a nomeação de "American Sniper" (um filme bastante genérico) face a obras como "Gone Girl" e "Nightcrawler". Bradley Cooper está a ocupar o espaço que deveria ser de Jake Gylenhall. Pior que isto é a completa omissão de "The Lego Movie" da corrida ao prémio de Melhor Filme de Animação.
Penso que "Boyhood" conquistará a principal estatuetas. Caso me engane, espero que a Academia tenha coragem de eleger "Birdman" ou "Budapest Hotel" em vez do comodismo e facilitismo que a escolha de "A Teoria de Tudo" pode demonstrar.


Seguem as opiniões/apostas de Maria João Vieira:

Melhor Filme
Preferência: Whiplash - Nos Limites
Aposta: Boyhood - Momentos de uma Vida

Melhor Realizador
Preferência: Richard Linklater (Boyhood)
Aposta: Alejandro González Iñárritu (Birdman)

Melhor Ator
Preferência e Aposta: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

Melhor Atriz
Preferência: Rosamund Pike (Em Parte Incerta)
Aposta: Julianne Moore (O Meu Nome é Alice)

Melhor Ator Secundário
Preferência e Aposta: J.K. Simmons (Whiplash)

Melhor Atriz Secundária
Preferência: Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Aposta: Patricia Arquette (Boyhood)

Melhor Argumento Original
Preferência:Nightcrawler
Aposta: Grand Budapest Hotel

Melhor Argumento Adaptado
Preferência: O Jogo da Imitação
Aposta: A Teoria de Tudo

Melhor Filme de Animação
Preferência e Aposta: Como Treinares o Teu Dragão 2

★ COMENTÁRIO: Das películas nomeadas para Melhor Filme, não tive oportunidade de ver "Selma" mas tenho a certeza que "American Sniper" é a mais fraca aposta. É uma nulidade e deixou de lado "Gone Girl" ou "Nightcrawler" que prendem o espetador ao ecrã e se revestem de conteúdo diferente. Talvez "Birdman" - apesar da boa cotação - seja o principal derrotado da noite.
"Grand Budapest Hotel" poderá ter lugar nas categorias de Melhor Fotografia, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Montagem. Nota ainda para "Interstellar", que poderá vencer na categoria de efeitos visuais e edição de som; "Foxcatcher" tem tudo para vencer em Melhor Caracterização.

Momento Pipoca: Teoria de Tudo

00:13 Posted by Maria João*** , , , No comments

Assim como "O Jogo da Imitação" (crítica do Fábio Silva aqui), a obra "A Teoria de Tudo", de James Marsh, traz-nos a biografia de uma mente brilhante.

O filme decorre em torno do jovem astrofísico Stephen Hawking (interpretado por Eddie Redmayne) e de tudo aquilo que o envolve. Desde as descobertas importantes e que tornam Hawking como um dos nomes mais importantes nas ciências modernas, pelo seu romance com Jane Wide (e que trouxe descendência em fartura) até à descoberta e convivência com uma doença degenerativa - Esclerose Lateral Amiotrófica - que ainda não o atraiçoou (apesar da esperança de vida reduzida após o diagnóstico, aos 21 anos).

"A Teoria de Tudo" é uma das obras nomeadas aos Óscares. O resultado é um registo quase documental. E a receita tem tudo para ser de sucesso: tem como base uma história real (a película baseia-se no livro “Viagem ao Infinito”, escrito pela primeira esposa do cosmólogo britânico); o personagem principal retrata vários problemas/dificuldades e o filme concilia várias histórias em simultâneo, incluindo a luta de Hawking contra as suas próprias convicções e perante a doença e as adversidades que esta lhe traz, sempre com um grande toque de ateísmo e de humor.

O filme não faz abordagens ao ponto de discutir religião ou ciências e essa subtileza é um ponto favorável a James Marsh. Nota positiva também para a banda sonora e para a fotografia.

Eddie Redmayne está impecável no papel que desempenha. O ator adota não só a aparência como a postura e os jeitos do cientista. Consegue, com a redução de movimentos, concentrar toda a atuação no rosto (que transmite os sentimentos e as intenções nos grandes trechos de filme em que permanece mudo). A posição e a maneira como foram colocados os ombros durante as filmagens quase trouxeram dissabores (graves problemas de coluna) a Redmayne. Com todos os condimentos, será uma grande injustiça se o ator britânico não levar o Óscar de Melhor Ator pela intensidade e pela atuação.

Não podemos terminar sem falar de Felicity Jones (que interpreta o papel de Jane Hawking). A atriz - que participou em "O Espetacular Homem-Aranha 2" - é a estudante de Letras com quem Stephen casa e que o acompanha ao longo da doença. Apesar de aguentar firme ao sofrer com as limitações da doença do marido (e que abafam a força inicial com que aborda o casamento), Jane atravessa, no final, uma fase de cansaço decorrente dos cuidados ao marido e da sua ausência enquanto mulher mas presença enquanto mãe e esposa.

Uma curiosidade: Stephen Hawking emprestou a sua própria cadeira de rodas para a gravação do filme e ainda visitou o set de filmagens, demonstrando apoio e aprovação.

Uma nota negativa: o filme centra-se demasiado no romance entre Stephen e Jane. Apesar de não se transformar num drama lamechas, poderia ter sido dada mais atenção ao percurso académico de Hawking.

CLASSIFICAÇÃO:
The Theory of Everything
★★★★★

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: O Jogo da Imitação


O biopic continua a ser um género bastante acreditado entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. É comum encontramos algum filme deste género entre o lote de nomeados para o Óscar de Melhor Filme. Em 2015, são quatro (em oito)!

Em "O Jogo da Imitação" ("The Imitation Game") voltamos atrás no tempo, para a II Guerra Mundial. Nesta obra, seguimos Alan Turing, um génio cuja importância altera o rumo do conflito a favor do Reino Unido e seus aliados.

O argumento toma algumas liberdades criativas face aos reais acontecimentos que se passaram neste período de tempo. No entanto, isso não impede o filme de ser uma obra intensa e cativante durante toda a sua duração. Por baixo das tentativas de criar um método para descodificar o sistema de encriptação da máquina ENIGMA, usada pela Alemanha nazi, são as lutas pessoais dos protagonistas que dão um maior alento à história.

Benedict Cumberbatch é soberbo na pele de Turing. Começamos com alguém pouco sociável, às vezes insultuoso para aqueles que o rodeiam, e tremendamente confiante no seu génio. Ao longo do filme, Cumberbatch revela a verdadeira face do génio: um homem com dúvidas, medos e, afinal, um bom coração.

Do outro lado, assistimos ao regresso de Keira Knightley aos focos de atenção. Joan Clarke, colega de Turing, é um ponto de luta contra as convenções da época: uma mulher. com ideias firmes, que anseia por algo mais do que uma vida de dona de casa. Knightley traz a Clarke um caráter forte, decidido e moderno.

De notar que o ângulo da homossexualidade do protagonista é tratado de uma forma subtil, sem grandes excessos. O realizador, Morten Tyldum (nomeado para o Óscar), mostra um Reino Unido fechado a esta questão, com consequências dramáticas para Turing. E, aqui, coloca-se a questão: é justo que um homem, que tanto contribuiu para o seu país, sofra tanto pela intolerância sexual da sua pátria?

Apesar de seguir as tradicionais convenções do género biográfico, "O Jogo da Imitação" tem tudo para ser um ótimo filme: baseia-se numa história forte (apesar de triste), decorre numa época negra, conta com ótimas prestações (Cumberbatch é grande) e levanta grandes questões morais (tradição, feminismo, homossexualidade e intolerância).

Ainda não vi "Selma" mas, entre os restantes três biopics, "O Jogo da Imitação" é o melhor, em termos gerais. "A Teoria de Tudo" bate os restantes nas prestações de Eddie Redmayne e Felicity Jones, mas a história não tem um ritmo tão bom. "American Sniper" é, sinceramente, o pior filme do lote dos oito nomeados. Clint Eastwood já fez muito melhor.

O Jogo da Imitação
★★★★★

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Momento Pipoca: BOYHOOD

20:38 Posted by Maria João*** , , , No comments

"Boyhood" é um filme americano que demorou doze anos a ser filmado; a produção começou em 2002 e terminou nos finais de 2013. E os doze anos que separam a infância da juventude de Mason Jr. levam o espetador a acompanhar, de perto, as alegrias e os dramas da personagem principal e dos seus familiares, verificando o crescimento e as mudanças naturais dos atores que dão vida ao filme.

Com um elenco de luxo, a história de Mason Jr. (Ellan Coltrane) passa pelo divórcio dos seus pais - que tentam, com uma relação cordial, criá-lo com o mínimo de incómodos possíveis -, a relação com a sua irmã (que passa da infância irritante a uma adolescência problemática), e o percurso escolar até à entrada para a faculdade, que deixa a família mais próxima com uma grande manifestação de orgulho. O sub-título "Momentos de uma vida" não é por acaso...

Apesar da personagem principal, o filme centra-se no dia-a-dia do enredo familiar, passando pelas mudanças frequentes de lar e as relações instáveis da mãe de Mason (Patrícia Arquette, "Médium"), com os problemas alcoólicos e violentos dos seus companheiros à mistura.

Quando o final do filme se aproxima, são notórias as semelhanças a nível visual entre Mason Jr. e o seu progenitor (Ethan Hawke), o que resulta numa grande união entre a narrativa e o tempo cronológico.

Do ponto de vista cinematográfico, o projeto de Richard Linklater (trilogia de "Antes do Amanhecer" e "Escola de Rock") é interessante e criou uma grande expetativa. As passagens temporais são bem pensadas, fazendo transições justificadas e que inserem referências à cultura representada, desde as eleições, a evolução da Apple e dos videojogos e a loucura Harry Potter.

A nomeação (e o prémio, caso seja arrecadado) para Melhor Realização é de uma tremenda justiça. Primeiro, pela complexidade que a rodagem deste filme envolveu; segundo, pelo risco que Linklater correu: os atores desistirem/perderem o interessse no projeto ou levar o espetador a dissipar-se a meio do filme.

A duração extensa do filme é justificada e não cansa. Pelo contrário, a história flui naturalmente e não pesa o tempo passado na sala de cinema.

CLASSIFICAÇÃO:
Boyhood
★★★★